Emerson Sheik: “No São Paulo eu aprendi a ser gente”

Emerson Sheik disse ter gratidão ao São Paulo, clube onde foi formado nas categorias de base. O ex-atacante foi promovido ao profissional no Tricolor no fim da década de 90

Em entrevista à TV Bandeirantes, Sheik justificou as repetidas brincadeiras que fazia com o São Paulo quando estava no Corinthians. Após ver uma reportagem com um resumo da sua carreira, ele disse o seguinte:

“Fiquei extremamente feliz de terem colocado o São Paulo. Queria falar do São Paulo. Foi o início da minha carreira. Eu zoei muito o São Paulo. Fiz todas as brincadeiras possíveis, porque acredito que o futebol perdeu essa magia. Tirando o gol, momento mágico da partida, as pessoas deixaram de brincar. Hoje atletas, comissão técnica e até diretoria é punida. Compartilho das brincadeiras porque cresci vendo Romário, Edmundo, Renato Gaúcho brincarem. Vivi isso como torcedor” disse Sheik, que seguiu elogiando e agradecendo o Tricolor, onde ganhou um título.

Foi o São Paulo que abriu as portas para o meu sonho de ser jogador. Ali eu fiz toda a minha base. Ali cresci como ser humano e pessoa. Ali aprendi a ser gente. Eu vim de uma favela. Não sabia nem comer frango com garfo e faca, porque em casa a gente pegava com a mão. Fiquei extremamente emocionado com o São Paulo. Foi ali que eu comecei. Já não sou mais atleta, não tenho mais que zoar o São Paulo. Fazia isso porque era uma brincadeira minha. Gostava de fazer isso. E o São Paulo faz, sim, parte da minha história. E eu ganhei títulos no São Paulo também, tá? Teve um Torneio da Flórida, talvez, um torneio dos Estados Unidos. Então, tenho título pelo São Paulo também. É um título de um torneio curto (risos)”,  completou Sheik.

SHEIK E A ADULTERAÇÃO NO DOCUMENTO

O São Paulo apareceu em um momento determinante da vida do jogador. Em 1996, com 18 anos, o garoto Marcio Passos de Albuquerque já não acreditava que pudesse vingar no futebol e via as portas se fecharem. Foi então que sua mãe (Carmem Lúcia) decidiu dar uma cartada final para que o sonho do filho e da família se realizasse. Marcio Passos de Albuquerque, nascido em 6 de dezembro de 1978, virou Marcio Emerson Passos, registrado em 6 de setembro de 1981.

“Na verdade, a minha ida pra lá (São Paulo) já foi com o documento falsificado. Sabe, aquelas pessoas que aparecem na sua vida com intuito de ajudar… Mas que fique claro: nós sabíamos. Não estou dando uma de santo, não”, afirmou Emerson, em entrevista ao Esporte Espetacular que foi ao ar em julho de 2013.

Carmem Lúcia afirma jamais se arrependeu de ter providenciado a certidão de nascimento falsa. 

“Ele chegou um dia com os olhos cheios de lágrima e disse: “Poxa, perdi minha oportunidade porque não tenho mais idade”. Aí, eu fui e fiz a segunda certidão. Não me arrependo. Eu me arrependeria se tivesse deixado o meu filho na rua – disse a mãe de “Sheik”, também ao Esporte Espetacular.

Na época, a família de Emerson morava num bairro pobre de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, e ele trabalhava como ajudante de pedreiro.

NO SÃO PAULO CHEGOU A JOGAR NA LATERAL-DIREITA

Com três anos a menos na certidão de nascimento, o garoto viu a carreira decolar. Levado ao São Paulo pelo ex-lateral-direito Cláudio Guadagno, foi rapidamente aceito pelo clube após passar pela avaliação de Milton Cruz, ex-técnico da equipe sub-20.

Pita, craque do São Paulo nos anos 80 e treinador de Emerson nas divisões inferiores do clube falou sobre o lado decisivo do atacante:

Ele sempre gostou de aparecer em jogos decisivos, de fazer gols importantes. Era um jogador diferente

Em clara vantagem física e técnica sobre os outros meninos, virou uma estrela das categorias de base do Tricolor. O ótimo futebol chamou a atenção da diretoria do clube, que passou a enxergá-lo como uma joia pela cúpula do clube, alguém que traria milhões de dólares aos cofres em pouco tempo. A expectativa era tanta que o colocavam acima até mesmo de Kaká na projeção feita pela direção sobre quem vingaria no futebol.

“O Emerson se destacava muito mais que o Kaká. Claro, hoje, sabemos que aquilo acontecia também pela idade. O Kaká sempre foi um craque, mas não tinha a força do Emerson. Ele fazia toda a diferença na base, pegava a bola no meio de campo e parava dentro do gol. Era impressionante”, recordou Pita.

ASCENSÃO AO TIME PROFISSIONAL DO TRICOLOR

Já sob o comando de Paulo César Carpegiani, o jogador foi promovido ao grupo principal, mas para atuar como lateral-direito, função na qual nunca conseguiu se adaptar. No dia 26 de setembro de 1998, aos 20 anos, ele estreou pelo time profissional do São Paulo ao entrar no lugar de Dodô, no empate por 0 a 0 contra o Flamengo, no Morumbi, pelo Campeonato Brasileiro.

Como atacante, marcou dois gols pelo Tricolor: um na goleada por 5 a 1 sobre o Atlético-MG, no Morumbi, em 25 de julho de 1999, e outro na derrota por 3 a 2 para o Santos, na Vila Belmiro, três dias depois.

A SAÍDA DE “EMERSON” DO SÃO PAULO

Por conta do Caso Sandro Hiroshi (o clube perdeu pontos de jogos contra o Botafogo e o Internacional depois que ficou comprovada a falsificação nos documentos do atacante Sandro Hiroshi), e com o temor de receber outra punição, já que havia a desconfiança da adulteração de documentos do atleta, a diretoria Tricolor decidiu negociar Emerson com o Consadole Sapporo, do Japão, mesmo sem ter a certeza da falsificação nos documentos.

Assim, em 2000, Emerson deixou o Brasil rumo ao futebol japonês. Ele se despediu do São Paulo com 19 jogos e dois gols marcados (sete vitórias, três empates e nove derrotas).

Sheik também defendeu Flamengo, Fluminense, Botafogo e Ponte Preta, entre outros clubes do exterior ao longo da carreira. Ele parou de jogar no Corinthians, onde também trabalhou como dirigente e saiu do cargo em 2019.

Fonte: GloboEsporte.com
Foto: Reprodução