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Diretor financeiro do São Paulo: “Não estamos endividando o clube para gestões futuras”

Elias Albarello fala em entrevista para o LANCE!, sobre a situação financeira do Tricolor e reforça que a gestão de Leco não está deixando dívidas para o próximo presidente 

Albarello, professor de finanças e administração no Mackenzie e fundador da ABEFF (Associação Brasileira de Executivos Financeiros do Futebol), da qual foi presidente entre junho de 2017 e fevereiro de 2020, era conselheiro vitalício do São Paulo, mas abriu mão da cadeira no último mês para continuar na diretoria até o último dia de 2020, quando Leco dará lugar ao próximo mandatário.

Em entrevista ao jornal LANCE! ele comenta a situação financeira do Tricolor em 2019 e dá suas explicações sobre o o déficit enorme que o clube tem:

“Essa história de que o São Paulo está com as finanças ruins para os próximos anos não corresponde à realidade. Não podemos olhar somente o aspecto frio, temos que olhar a estratégia”, falou. 

O DÉFICIT – R$ 156 milhões 

“Estamos falando de algo em torno de R$ 85 milhões divididos em três grandes ações. A primeira foi decorrente do acordo judicial com a CET. Essa era uma ação contra os quatro clubes de São Paulo, referente a operações de jogos, em valor que gira em torno de R$ 25 milhões. O São Paulo fez um acordo para pagar durante quatro ou cinco anos. Uma outra bastante importante, e essa vem de 15 anos, é referente à aquisição do Ricardinho. O São Paulo pegou dinheiro emprestado de uma empresa, não honrou com o compromisso e isso vinha sendo discutido. Chegou ao montante da ordem de R$ 30 milhões. A última, também por volta de R$ 30 milhões, é com relação a direitos de arena de ex-jogadores. É uma ação que todos os clubes têm, e o São Paulo entendeu que deveria fazer essa negociação, como alguns clubes estão fazendo.” 

E completou: “Nós estamos falando de R$ 85 milhões em valores não operacionais. Se tirássemos esse valor, são cerca de R$ 70 milhões (de déficit). E aí temos que explicar o motivo. Nós tivemos alguns fatores importantes. O primeiro deles é, sem dúvida nenhuma, uma queda nos direitos de transmissão, principalmente do Campeonato Brasileiro, por conta do menor número de partidas transmitidas em relação ao previsto e de uma queda em assinaturas do pay-per-view, além das nossas desclassificações prematuras na Copa do Brasil e na Libertadores. Tivemos uma diferença da ordem de R$ 30 milhões. O segundo fator, também decorrente da desclassificação prematura, diz respeito à bilheteria. O impacto que podemos considerar sem Libertadores e sem Copa do Brasil em 2019, na bilheteria, foi da ordem de R$ 25 milhões. Então, dos R$ 70 milhões de déficit operacional temos R$ 30 milhões de transmissão e R$ 25 milhões de bilheteria, já estamos falando de R$ 55 milhões. O que também contribuiu para esse resultado foi o aumento da nossa folha. Estamos falando de uma diferença de R$ 30 milhões de 2019 para 2018, o que é algo significativo.” 

VENDA DE ANTONY

“Nós tínhamos proposta, mas não como essa que foi aceita agora, da ordem de 16 milhões de euros. Além disso, nessa negociação também veio a venda dos 20% que tínhamos do David Neres, na ordem de 7 milhões. Estamos falando de 23 milhões de euros, algo em torno de R$ 130 milhões. Por que não fizemos em dezembro? Porque entendíamos que a proposta não estava no valor de mercado. A proposta que tínhamos impactaria diretamente em termos de resultado financeiro, mas a diferença que obtivemos pelo fato de ter feito em janeiro, além da ida do jogador somente em julho, é muito mais relevante.”

AUMENTO DA DÍVIDA

“Podemos fazer duas análises. Em uma análise especificamente financeira: não deveríamos concentrar os pagamentos desses empréstimos no ano de 2020, isso você tem que fazer em longo prazo, tem que ter período de carência, juros menores. Ao mesmo tempo, por uma determinação do Leco com a qual eu concordo plenamente, temos a responsabilidade de não deixar isso para gestões futuras. Nós concentramos a captação de recursos para pagamento em 2020, que é quando acaba a gestão. Isso obviamente impacta, mas nós temos contratos dados como garantias, como televisão e patrocínios, que suportam esse aumento de captação de recursos. Nós somos criticados por isso, por ter mantido o endividamento elevado no ano, mas isso teve uma razão. Assim como não vendemos o Antony em dezembro porque tínhamos certeza que em janeiro conseguiríamos uma proposta muito melhor, nós captamos para amortizar em 2020 porque temos contratos para isso. A principal razão é não deixar isso para gestões futuras. Dizem que estamos endividando o clube, mas isso não é verdade. Está colocado ali, nós temos contratos. O único recurso que captamos que ultrapassa o ano da gestão é o FDIC (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) ‎que nós fizemos, da ordem de R$ 35 milhões, que foi o primeiro FDIC de futebol no país. É a inserção do futebol no mercado de capitais. Fizemos isso até 2023, com um valor da ordem de R$ 750 mil ou R$ 800 mil por mês, amparado também no contrato do pay-per-view. Isso foi muito bom. O São Paulo teve um custo muito menor do que em qualquer outra captação de recursos, além do prazo de carência que obtivemos. Isso nós levamos a aprovação e foi aprovado pelo Conselho Deliberativo.”

E completou: “Esta receita não ficaria para anos futuros, mas poderia e deveria ser utilizada para amortizar financiamentos que já existiam e que ultrapassam os anos da gestão. Nós poderíamos amortizar para deixar de pagar juros e encargos financeiros. Esse é um ponto que realmente reflete. Ao mesmo tempo, você tem que manter o time. Essa captação de recursos foi necessária porque fizemos um investimento alto, contratamos quase R$ 150 milhões em jogadores. É um dos itens que cresceram: dívidas com entidades esportivas foram de R$ 40 milhões no curto prazo para R$ 90 milhões. São R$ 50 milhões por direitos econômicos dos jogadores neste ano. Isso também contribui para o endividamento. Quando você fala de um passivo circulante, que significa endividamento de curto prazo, neste ano nós estamos saindo de R$ 290 para R$ 480 milhões. Expliquei para você o aumento de R$ 80 milhões (instituições financeiras) mais R$ 50 milhões (pagamentos a clubes). Então, R$ 130 milhões deste aumento são explicados em dois itens. Isso está dentro do ano, não vai impactar para anos futuros.”

“A gente vai pagar, mas eu gostaria de pagar mais, de amortizar. Por exemplo: no fim de 2018, eu tinha R$ 60 milhões (de dívida) com instituições financeiras. Eu poderia pagar isso ao longo de 2019, mas não vou pagar e aumentei R$ 60 milhões. Poderia pagar com essas receitas financeiras, o que seria interessante por conta dos encargos. Poderíamos ter reduzido, sim, e era o objetivo, mas a diretoria optou por contratar jogadores e montar um time de excelência, que é o que nós temos. Foi uma decisão consciente e suportável. Se estivéssemos falando de uma empresa que fatura R$ 400 milhões, este nível de endividamento é absolutamente nada. Quiçá as empresas gostariam de ter uma estrutura desse tipo, porque é perfeitamente viável fazer uma boa gestão. Para o ano que vem, é como se retornássemos lá em 2018. Eu ouço muito essa crítica, mas tem que entender o contexto, são decisões amadurecidas e responsáveis da diretoria.”

Foto: saopaulofc.net
Fonte: LANCE!

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Escrito por Natália Milreu